2 de julho de 2005

Metade [Oswaldo Montenegro]

 Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio 
Que a morte de tudo em que acredito não me tape os ouvidos e a boca porque metade de mim é o que eu grito mas a outra metade é silêncio. 

Que a música que ouço ao longe seja linda ainda que triste que a mulher que amo seja pra sempre amada mesmo que distante porque metade de mim é partida mas a outra metade é saudade. 

Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos porque metade de mim é o que ouço mas a outra metade é o que calo. 

E essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e paz que mereço e que a tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada porque metade de mim é o que penso mas a outra metade um vulcão. 

Que o medo da solidão se afaste e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso que me lembro ter dado na infância porque metade de mim é a lembrança do que fui a outra metade não sei. 

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria pra me fazer aquietar o espírito e que o seu silêncio me fale cada vez mais porque metade de mim é abrigo mas a outra metade é cansaço. 

Que a arte me aponte uma resposta mesmo que ela mesma não saiba e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer porque metade de mim é plateia e a outra metade é canção. Que a minha loucura seja perdoada porque metade de mim é amor e a outra metade também.

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