27 de março de 2008

Como recebi meu salário antes do dia 10

Não há salário de professor que remunere bem. Pelo menos na realidade do Brasil. Não tô falando de Governo, mal do país ou do clichê de que não se dá valor para a educação. Escrevo como professora. Qualquer empregado chega em seu trabalho, desempenha sua função e vai pra casa fechando a sua mesa, a loja, etc e deixando o que ficou lá para o dia seguinte. Professor vai para a casa, pensa no trabalho do dia seguinte, elabora avaliação, corrige pesquisa e ainda tem que se preocupar se a turma tá aprendendo porque, caso contrário, a culpa é dele. As nossas horas de trabalho diárias no estabelecimento, não representam nada! São apenas mais uma etapa de outras tantas fora dali que são primordiais para o estar em sala de aula acontecer mas são vistas como parte integrante de um salário vergonhoso que mal cobre as horas de aula dadas. Você pode ter carteira assinada, receber o piso, vale transporte e quiçá tictek refeição. Mas você é bem remunerado? Professor recebe para entrar em sala e dar aula. No entanto, tem que ter jogo de cintura para lidar com o aula, com a diretora, com os tramites burocráticos, administrativos, os PCN's, o MEC e os pais, aí vem o aluno, infelizmente. Parece que é simples. Você vê sobre o que vai falar, entra em sala e explica. Não importa quantas aulas você de por dia, em quantas escolas você trabalhe ou se você dobre o seu turno, nada remunera um professor como devia ser. No meu caso, me apaixonei pela Educação Infantil. Nada mais delicioso que criança. E nada mais cansativo. Na rotina de sala de aula, não há como dar a matéria simplesmente. Eu sou paga para fazê-los aprender, ponto. Mas tenho que decorar as mochilas, cuidar do material pessoal, ajudar a limpar o nariz, fiscalizar a hora de escovar os dentes, mudar de roupa se fizer xixi, não deixar cair, morder, bater...eu educo! Às vezes com a ajuda da família e na maioria das vezes não. Meus fim-de-semana são fazendo planejamento, minha saída após a entrega da turma é corrigindo livro, meus dias da semana são vendo as folhinhas e fazendo mil e uma coisas para as aulas se tornarem atrativas e poderem competir com a TV, DVD, internet e afins. Hoje as crianças já vem prontas! precisam apenas organizar as idéias e a gente acha que o número ! é novidade. Nada paga ver se lanchou tudo, ouvir na hora da brincadeira para não ter que aprender com a vida, o pegar no colo, o dar remédio quando está doente, ver se escovou o dente direito, se preocupar quando fica doente, fazer carinho, dar beijo, se apegar...Professor é pago para dar aula mas a convivência nos gera costume, saudade, vira vício! e aí o ano acaba e você lembra que aquela criança é filho de outro e no ano seguinte, sente seu coração rachar e fica carente de, inevitavelmente, vê-lo na mão de outra tia que talvez nem se identifique e goste tanto dele. Sim, porque professor tem dessas coisas também embora parece repugnante ser tão humano assim. É ético o gostar de todos de forma igual. Se você é professor de jovens e adultos, passa por isso também quando se preocupa em mostra a química na prática, em lançar na educação física basquete porque a turma gosta mais que vôlei, quando se pega explicando mil vezes de forma diferente aquela equação de duas folhas, quando dá história e tenta conscientizar, quando explica geografia e ninguém se interessa por saber os afluentes dos rios porque é decoreba. Ou pior! Quando senta para conversar porque sabe que aquele aluno em meio a turma de 30 está mais calado aquele dia, quando participa do amigo-oculto, quando é escolhido professor homenageado, quando dá aquele braço no aluno que perdeu alguém, quando sabe dos conflitos amorosos, quando ri da piada fora de hora, quando reconhece a voz impertinente mesmo estando de costas escrevendo no quadro... Por isso professor jamais vai ser bem remunerado em tempo algum! Talvez por isso tenha me encontrado na educação infantil. É nos sorrisos, abraços, beijos e desenhos do dia-a-dia que minhas "horas extras" vão sendo pagas. Dia desses uma mãe veio falar comigo, muito preocupada com o filho que pulou uma série por causa da idade e acabou adiantado pert dos demais coleguinhas. Queria saber da coordenação motora, concentração, da maturidade dele perante os outros e se estava conseguindo acompanhar a turma. A dificuldade existe, ele é o bebê do meu Jardim mas o que importou mesmo foi quando ele, se desculpando por ele, como se precisasse, disse que embora ainda fora do ritmo nos trabalhinhos, ele já reconhece o A e o E. Que da janela ele viu uma placa de não estacione e gritou: "-Mãe, olha o E!" Ela disse que chegou na janela e custou a ver o tal E porque ela sabe a complexidade da placa e há vê como uma placa, não como um E. Daí em diante, tudo o que relatei em cima fez sentido. Meu peito encheu como de um pavão comas penas abertas e o resto da conversa foi esquecido. Em um mês de trabalho, ele sabe muito bem o que é o E. A ajuda em casa é primordial, o desempenho dele é aplaudível mas só eu sei a sensação de ter aberto esse mundo novo cheio de A's e E's nunca antes notados, mesmo que a caligrafia ainda o deixe "canxadu" e pareça doer a mão com os movimentos precisos. E assim recebi meu salário antes do tempo e com um extra que não supera nem o 13.

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