Eu sou moradora e trabalho na zona Norte do Rio. Aqui perto de casa nem é área de risco mas essa confusão de invasão de morro chegou no em torno do meu bairro.
Ontem à noite, não pude sair de casa e meu irmão, quando chegou do trabalho alertou que a via expressa para sair da zona norte estava fechada. Para chegar aqui ele teve que fazer um caminho completamente diferente e ele nem estava fora da área norte da cidade.
Minha turma não pára de falar da polícia. Estão vendo policial em todos os cantos. Uns ficam com medo, outros explicam com a simplicidade que é peculiar de uma criança que "O policia é amigo".
O assustador é que são crianças de 3 e 4 anos que não estão relatando somente coisas vistas na TV mas sim momentos que estão vivenciando no dia-a-dia. Eles moram todos em torno de onde houve a queima dos ônibus, e uma de minhas alunas me falou dos ônibus queimados, que saiu de carro, que a mãe ficou preocupada e que elas iriam passear mas a mãe achou melhor não. Discurso que antes era atribuído apenas a criança da favela, hoje é compartilhado com criança do asfalto também. Em meio as perguntas e histórias que em cabecinha de criança se agigantam, eu fico me perguntando se violência/segurança pública vai acabar virando matéria do currículo escolar assim como a ecologia e a destruição do mundo acabaram se integrando ao conteúdo do MEC.
Embora a zona norte seja carente de uma série de coisas e eu tenha que me deslocar uma hora de ônibus para chegar em qualquer lugar interessante da cidade, temos aqui uma cultura de bairro deliciosa! Ainda existem casarões, os vizinhos se conhecem, as crianças brincam nas calçadas, você mexe com os cachorros, faz gracinha para os bebês e pede a famosa xícara de açúcar quando o seu acaba.
O meu prédio, por exemplo, é simples. São quatro andares e só temos no quadro de funcionário um zelador que é o mesmo há anos, sentimos quando bons vizinhos se mudam e criamos expectativa para chegada do novo vizinho.
É uma pena ver todo esse desrespeito e abandono com uma parte da cidade que também é a cara do Rio. Sim, porque as praias estampão os postais mais o Rio também é zona norte. Fala-se tanto na Barra, um modelo importado que em nada se parece com nossa cultura, e esquece-se dos bairros feitos nos locais das antigas fazendas de engenho nos quais as ruas recebem o nome dos moradores que eram donos das terras.
Infelizmente, meus alunos, serão de uma geração que aos 3 anos não tem muita certeza de pra que serve a polícia mas sabe que quando ela aparece é pra ficar com medo. Uma geração marcada desde pequena a aprender a sobreviver na selva de pedra e que, como consequênca, vai banalizar tudo isso que ainda nos mobiliza. Eles serão "gatos escaldados"! Se isso é bom? Talvez porque dizer que sim é fazer uma previsão muito pessimista de que as coisas vão continuar e piorar.
Por enquanto eu fico aqui vendo os helicópteros fazendo sobrevôo, as sirenes tocando e fazendo parte do noticiário que deixou de ser da TV e passou a ser da minha vida.
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