
Ela era diferente. Uma criança diferente de todas as outras. Quando a vi pela primeira vez, chegou no meio do movimento já começado. Não sorriu, não chorou, não mostrou preferência por nada! E assim se seguiram os dias. Não demonstrava ser amiga de nenhuma das outras crianças ali e reagia da mesma forma na hora de brincar, de praticar alguma atividade ou quando levava bronca.Ela era indiferente. Uma criança blasé. Uma esfinge de 4 anos de idade que me instigava. Minha pequena Monalisa tinha instituído nela uma capa de frieza que gerava também nos outros a indiferença que ela distribuía a todos. Sem conseguir me aproximar, não insisti, me afastei.
Com o tempo fui reparando detalhes que escapuliam em sua conduta. Ela era capaz de brincar de ponta cabeça. Fazia movimentos ágeis, precisos. Possui movimentação de braços e pernas perfeitos! E foi na aula de natação que, intrigada por não exigirem dela o uso de bóia, que descobri: ela pratica ginástica olímpica. Foi aqui que tive a certeza absoluta de que não se tratava de mais uma em sala.
Certa vez, me pediu ajuda para ir ao banheiro pois estava de maiô. E foi nesse meio tempo, durante uma conversa que ela falou de si. Relatou da família uma história que a mim deixou confusa e chegava a ser um pouco fantasiosa mas que ele compreendia e explicava com riqueza de detalhes. Coisa de criança, pensei. Dali em diante era comum lhe trocar a roupa. Ela não se importava de fazer xixi na roupa em meio as outras crianças nas atividades no pátio. Tanto fazia se riam. Ela sabia que eu não permitirei deboches. Ao trocar de roupa ela pedia para colocar o vestido. e aí entendi que era sua preferência. ela não queria uniforme e sabia como fazer para colocar o que gostava.
A minha esfinge em miniatura era um mistério a ser desvendado. Que segredo trazia aquela criança que me instigava tanto e nas professoras anteriores a mim despertou antipatia? Foi na Páscoa que descobri. Assim que me viu disse que havia me trazido chocolates, assim como os colegas que ela via me entregarem mas ao abrir a mochila, não havia nada. Na hora da saída, ela saiu de coelhinho igual a todos os outros. E quando já ia voltando pra sala, ela voltou portão à dentro na contra-mão e me entregou uma caixa que fez questão que eu abrisse na sua frente. Assim o fiz. Eram bombons que, curiosamente, eram os meus preferidos. Indaguei porque havia ganho aquilo acreditando que fosse ter como resposta um "Feliz Páscoa" mas ela foi mais à fundo e disse: Porque gosto de você.
Dali em diante, por dias ela faltou. Não caminhou com a turma e nem pude avalia-la. Quando voltou, foi cercada de histórias mal contadas e me cercou todo o tempo para conversar. Em meio a tantas coisas naquele dia, não conseguiu e agiu como toda criança que deseja atenção, chorou. Pela primeira vez a coloquei no colo, prendi o cabelo que se desprendia e contei histórias afim de distraí-la e pra ela não importou mais o que ela queria dizer. Diante dela, comentei cifradamente aquilo tudo com outro adulto e ela me mandou calar a boca. Fiz que não entendi e ela disse: Estou com dor na boca.
Demorei meses para quebrar a sua frieza, seu escudo, meses para saber como prender seus cabelos, como fazê-la cumprir as tarefas e como despertar nela a vontade de brincar. E quando finalmente consegui, percebi todo o potencial que existe ali, à meu alcance. Ela não questiona, é difícil de interagir e não se desgasta. Faz o que quer fazer. Ao contrário dos outros, brinca porque quer e não porque é a hora. Faz o trabalho e dá respostas criativas que chegam a assustar e nunca foram aproveitadas por serem vistas como coisas de criança, entende da vida a sua volta como nenhum outro ser tão pequenino consegue. Ela é analítica, tem poder de síntese e faz ginástica olímpica! E eu sou só a professora que achou que ia ensinar a ela como ser mais uma na multidão.
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